Alexandre Porto
NICTHEROY: DE 1500 A 1900



por Manoel Benício, 13 de maio de 1910

Contemplando-se do alto da mais alta colina que domina Nictheroy - o morro de São Lourenço, outrora dos caboclos - o báratro de caliça, de pedra, madeira, metal e águas, dentro do qual vivem, sofrem e morrem cinquenta mil criaturas humanas atualmente, observando-se filosoficamente esta colmeia gigantesca donde se eleva um sussurro confuso de alegria e de dor, o nosso pensamento, voltando-se para a infância e para o berço de nossa terra, procura adivinhar o que foram as existências passadas, os edifícios e outros progressos da indústria humana ora extintos.

Bastávamos conhecê-los desde o dia em que o famoso Arariboia pôs pela primeira vez, o pé cor de bronze no pico: do morro em que fundou a sua aldeia.

Mas a história, as tradições e lendas são escassas de cabedais minuciosas, de modo que os cronologistas da velha aldeia sentem-se vulneráveis quando enfrentam com o descrevê-la.

Não temos nenhum mapa, planta alguma de Nictheroy de 1600.

Quantas escavações, cortes, aterros, empachamentos, destruições naturais e artificiais não têm modificado o relevo primitivo dos rios, dos morros, dos mangues, dos mares, dos alagadiços das planícies, de todo nosso solo enfim, até que a cidade tomasse a feição que ora tem?

Se os traços quase desbotados da origem dela excitam o nosso interesse, quanto prazer e orgulho teríamos em comparar a sua infância com a sua adolescência de hoje.

Qual o aspecto que deviam apresentar a baía, o litoral, as terras de Nictheroy do Arariboia?

A tentativa de uma descrição a tal respeito é perigosa, mas tentadora. Tomamo-la sobre os ombros escudados em velhos documentos, citações e antigos escritores.

A banda oriental de enseada do Rio de Janeiro era, antes da descoberta do Brasil, terras povoadas de índios tamoios e tupiminós.

Restingas, alagadiços, morros bosqueados, mangues, florestas virgens sucediam-se na desordem brusca e selvagem das terras incultas.

De quantas lutas tremendas, sanguinolentas e desconhecidas na história e nas tradições, entre selvagens, entre feras e entre ambas as espécies, não foram teatro o nosso litoral, os recôncavos, as planícies e florestas do continente?

A história não pode penetrar além da entrada onde parou o primeiro civilizado. E é daí que partimos em direção ao nosso fim.

É harmônica a opinião dos geólogos sobre a elevação gradual de algumas costas, ou seja, o recuo do mar em certas praias, devido a ação lenta, mas continua, das forças vulcânicas em atividade no interior do globo.

Este facto tem sido observado em todo nosso litoral.

O dr. Capanema denunciou, há anos, que em penedos de nossas praias a considerável altura do mar, existem escavações formadas outrora pelos ouriços marinhos.

Se o mar em outros tempos nivelava-se em tais alturas é de deduzir-se que em épocas anteriores, todo o município dormia debaixo d'água pontuada por que são os morros e colinas atuais.

São ainda visíveis e de nossos dias outras provas deste fenômeno que aos poucos foi descobrindo a terra que Arariboia aldeou em 1570 e Clemente Pereira governou em 1819.

Vejamos. As lagoas Piratininga e de Itaipu são hoje inteiramente separadas.

Não há muitos anos as suas águas se ligavam por meio de um riacho a que denominam - Camboatá, o qual alagara larga faixa de terrenos restingosos. A denominação de Camboatá do rio parece aludir à existência de muitos peixes deste nome que tanto vivem n'água como em terra.

Outro fenômeno de recuo das águas vê-se ainda hoje na enseada de Jurujuba, num trecho de terras denominado Ponta da Ilha.

O mar que antigamente entrava pelo porto da Parada e pela Várzea isolava este pedaço de terra, em questão, fazendo-o ilha, o que já não é hoje, mas terra firme ligada ao continente.

Semelhantemente dá-se com o morro da Armação e Ponta d'Areia. Ainda no século passado existia quem conheceu esta porção de terra como ilha e atravessava em canoa, pelas ruas de S. Carlos e Santa Clara, da praia à enseada de São Lourenço.

O corsário francês René Duguay-Trouin que levantou em 1711 uma carta de nossa baía (imagem de capa) fez representar o promontório da Boa Viagem como uma ilha largamente afastada da terra firme, no entanto vai-se a ela atualmente a pé em maré baixa ou de pouco fluxo. As marés encanando-se por dentro do rio Icaraí transbordaram alagando os terrenos entre a praia e o morro do Calimbá. Na medição última das terras dos índios, os pilotos já empregavam ingentes esforços para fecharem o perímetro por Icaraí, naquele tempo pontuado de pântanos e alagadiços!

Pelos fios do século passado o presidente Gavião Peixoto mandou construir um sólido quebra mar no Canto do Rio sob a engenharia do Dr. Limpo de Abreu o que deu feição nova ao bairro de Icaraí.

Mais para o sul ergue-se a pedra de Itapuca, tapira do que foi. Se Arariboia, hoje vivo, enfrentasse com esta penedia isolada na praia, a denominaria não "pedra assentada", mas Itaburi - frade de pedra - pela semelhança atual dela com um frade de capuz. Na entanto, seu primitivo apelido exprimia a verdade.

Era uma penedia que, erguendo-se do mar, debruçava-se como um arco-íris e vinha pousar à outra extremidade na encosta do morro que lhe faz frente.

Assim como há 90 anos não se passava por Itapuca, calçado em virtude da maré remancear por debaixo do arco ou furna do penedo que se foi demolindo pelo choque das águas, pode se avançar que em tempos mais remotos toda a penedia era inteiriça.

Seria um prolongamento do morro que se metia pelo mar adentro a guisa de promontório.

As vagas foram lhe roendo o sopé, cavaram-no, furaram-no por baixo à ponto de fazerem um arco sob o qual transitavam os antecessores do presidente Pedreira.

Foi este que, pelo apelido, devia conservar tal como encontrou a Itapuca, mandou demoli-la para abrir largo caminho a seus carros e sucessores.

Isto feito deu parte a D. Pedro II do grande melhoramento produzido.

Pedro II respondeu-lhe não sem tristeza desgostosa: "Já sei. Você destruiu em poucos dias um monumento natural de séculos".

Depois da Itapuca temos a Praia das Flexas que outrora estendia-se até a rua Tiradentes, assim como a praia de São Domingos invadia a Praça Leoni Ramos.

Em 1816 quando D. João VI visitou pela primeira vez a Praia Grande, aquele largo era tão curto que não pode ser escolhido para a cerimônia futura da criação da Vila.

Ainda neste tempo havia um recife de pedras desde o forte de Gragoatá à ponte Fleuss, hoje Cantareira, do qual restam alguns pedregulhos à flor d'água. Foi arrebentado a explosivo. Fronteiro à velha ponte de São Domingos elevava-se o morro da Pampulha, ao pé do qual o mar batia e não dava passagem. Esta se fazia pela Travessa Briggs, ou antigo Beco do Cortume.

Este morro foi desaterrado em 1839. Daí avante a maré avançava além da única fila de casas da rua da Praia, beijando o pé do morro do Bruno, hoje do Hospital, alagando o Valonguinho, o trecho final da rua Visconde do Uruguay até a rua Andrade Neves e parte do Largo da Memória.

O atual primeiro distrito era uma restinga a começar da rua do Príncipe (atual Barão do Amazonas) onde chegava o mar. Esta restinga dividia a praia do Saco de São Lourenço.

Semelhante ao "Monte de Ouro", em nossos dias alcançamos, pontuando o perímetro da rua de São João à de São Carlos (hoje Silva Jardim), diversas dunas que já não existem hoje.

O maior era no largo do Quartel e outro havia na esquina da rua de São Francisco (hoje Saldanha Marinho) entre a Visconde de Sepetiba e Barão do Amazonas.

Já vimos que a Armação era uma ilha, por sua vez o mar de São Lourenço espraiava-se até ao morro da Caixa d'água onde desembocava o rio dos Passarinhos, atualmente desaparecido.

A passagem para São Lourenço fazia-se por entre os morros que ladeiam o fim da rua Aureliana, antiga do Arrozal (hoje Cel. Gomes Machado).

Para o lado do Ponto cem-réis (na hoje rua Marquês do Paraná) todo o baixio era alagado e os altos bosqueados. Não há 70 anos, que caçava-se jacarés para estas bandas.

A ala esquerda da rua de São Lourenço era toda um mangue que se estendia triunfalmente até Santana.

O sistema oreográfico do município padeceu também grandes transformações artificiais.

Diversos morros foram cortados de meio a meio, outros tiveram as encostas desobstruídas e alguns desapareceram para dar lugar ao avançamento e nivelamento de ruas.

Assim os de São Lourenço, Conceição, Pedreira, São Luiz, Hospital, São Sebastião, Boa Viagem, Garganta do Inferno, Armação, Gragoatá, Santana, etc. Daqui a séculos talvez nem um mais exista.

Publicado originalmente em O Fluminense (13/05/1910)
Pesquisa e edição: Alexandre Porto



Publicado em 09/05/2022









Informes da Câmara Municipal ao Capitão-mor Gabriel Alves Carneiro
Gabriel Alves Carneiro responde ao Presidente da Província
Ação de desapropriação do Campo de D. Helena


aaaaaa

Com formação em Engenharia Florestal, eu, Alexandre Porto, já fui produtor orgânico de alimentos e apicultor, mas hoje ganho a vida como escriba (Enciclopaedia Britannica do Brasil, Fundação de Arte de Niterói). Há 20 anos me dedico a pesquisar a História de Niterói, minha cidade natal, do Vasco, meu incompreendido time de futebol, e da Música Popular Brasileira, minha cachaça. Por 15 anos mantive uma pioneira rádio online no Brasil, a "Radinha". Pra quem quiser me encontrar nas redes, seguem os links:
Facebook e Twitter